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20 notes | ↳↴A minha roupa, ela está se estendendo em torno das paredes da minha casa, lambendo os rodapés, de repente cobrindo os móveis como um lençol velho cobre os móveis, um pouco antes da mudança. Da mudança.
Num instante, sou eu a única despida. Penso: “que saudade de ser transparente” ou “como é bom, a saída da prisão, a iluminação nova que se estende sobre a minha boca, a liberdade de um salto”. (Saiba agora que eu sou uma esquiva sendo remodelada através dos tempos). Como é bom, eu sinto, os cachos de palavras nascendo e escorrendo como vinho dessa velha boca.
Essa velha boca que pouco falou, eu lembro, desde que nasci. E que, quando falou, não foi ouvida, apenas seu eco ziguezagueou pelas grades, o lindo baile cujos pares são barras de ferro, a difração de todo o resto.
Como é bom, eu retomo, quase o barulho de uma bomba, o desmoronamento. Eu quero escrever em teu rosto e soprar um vento bravo até que a tinta congele. Fixar o que eu puder te oferecer antes da partida. E aceito teu pouco tempo, teu quase nada, pois sou apenas mais uma das interesseiras que sugarão teu sangue e teu esmero, colhendo os gestos e as boas sacadas. Mas não há nenhum problema nisso. Oh, nenhuma cidade jamais te conhecerá tanto quanto eu.
Não há nenhum problema. Há dois dias não durmo e posso tentar um terceiro dia. Uma bruxa magnética que tem dado sorte na vida. Assisto, assisto, assisto. Leio, assisto. Tua barba e tuas frases pouco nítidas. Não durmo. Quem desejaria uma temporada mais fatal?
Sim, os meus dias tomam a forma de pequenas esferas, a desordem em sua própria órbita. O que mais uma contadora de histórias poderia pedir?
Sim, tenho envelhecido, o meu sorriso caiu por cima de ti, eu vi. Tua face escurecida e enigmática dentro da melodia de uma música. Várias vezes a mesma música. E tua face. Algo tão libertino quanto o pedido de uma salvação para todos os povos.
Estaríamos nós mais perto da evolução dos pássaros?
A liberdade, eu vejo, é uma criança deitada sobre a esteira de palha do meu quarto, depositando o lixo ao canto da parede, rasgando todos os meus papeis, ela está brincando com as joias herdadas da minha família, quebrando uma a uma. E ela me olha, me afronta, como quem diz “vamos, me mostre o que você é capaz de fazer com isso”. E é uma mágica, as luzes trepidam.
Como é bom, ela estraga todos os tecidos. As manchas roxas da minha coxa direita. De novo uma jornada de palavras proibidas, censuradas, que eu tenho a beleza de dizer. O ser humano, às vezes, por um lapso, descobre que adormeceu a alma na máquina.
Sim, os móveis estão esquecidos e obsoletos sob a minha roupa. Sou eu quem estou viva neste fim de mês.
Mariane Cardoso