Realidade de Uma Terça-Feira Gorda

anjoinverso:

Abril passa como a silhueta de alguém perdido na noite. Tenho bebido, fumado, fodido, assistido futebol, vasculhado o submundo do cinema. Não tem havido muito do que se orgulhar, exceto a literatura. Mas as pessoas desconhecidas me contam seus problemas. No ônibus, na fila do banco, na sala de espera da clínica oftalmológica. Qualquer lugar onde o silêncio prevalece é um bom caminho. É visível, todas as coisas vitais podem ser compartilhadas, todas.

Começo a entender novamente a natureza dos homens. Abril sopra as especulações no meu ouvido. Relembro Pessoa: sim, amigo, andei conhecendo quem tivesse levado porrada. Não sou a única sujeira do mundo. Abro a boca, a risada preenche a sala como um perfume. A carne e a infâmia caminham de mãos dadas e as observo. Acho que ando na borda. Sou um paralelo interceptado capaz de reconhecer as confissões. Estou em êxtase, amigo, em êxtase. Então há espaço para os desajustados. Dentro do silêncio, então. Dentro da bolha amarga. Há espaço para gente errante.

Então, em algum momento da vida, você também foi uma criança perversa. A transubstanciação. Essa palavra ficou na minha cabeça como um ímã. Você deve ter sujado todo o chão da minha casa enquanto sugava o meu pescoço. Você é outra pessoa depois de mim. O nome disso também é invocado pela igreja, meu amigo. O que fizeram com o vinho e o pão, eu fiz com você na direção contrária.

Estou finalmente aliviada por sermos pequenos, por não termos as respostas. Um coração aberto é o melhor disparo quente.

Abril se expande e derruba os escudos. Me pego olhando o prédio ao lado. A vizinha que costura mantém o mesmo ritual. Às sete e meia da noite, reorganiza todas as linhas por cores, dobra os tecidos, varre o chão. Imagino que esse seja o momento mecânico denso, aquele em que a única alternativa é refletir sobre as dores, o mal. Os movimentos repetitivos não ocupam a mente. As maiores vergonhas são recorrentes.

Assim acontece com os organizadores de prateleiras, os limpadores de vidro, os que levam seus cães para passear. É a mesma história com os motoristas de ônibus, condenados a realizar o mesmo trajeto automatizado, e com os cobradores, sentados à espera do fim do mundo, girando e girando a catraca. O que os seguranças fazem parados em frente às portas? O que os ciclistas driblam enquanto pedalam? O que os escritores estão tentando esquecer com tantas palavras?

São como eu e você. A língua adormecida sempre recobre o vulcão da garganta. Há muito mais sede do que se pode imaginar. A atmosfera de silêncio faz parecer que o mundo ainda é recoberto com seus véus e lençóis.

Nós somos as pessoas depois do beijo.

Nós somos as pessoas depois do nu.

Mariane Cardoso

anjoinverso:

Hey, you:

4’33”.

Se canção, esta.

Sendo canção, assim.

Se o mundo está quebrado e a pessoas ouvem a beleza como uma nota distorcida (ou, pior, ausente), por que nos privarmos da rebeldia? O meu Sol é um silêncio, uma estrela queimando e fundindo núcleos dentro do coração e das cordas.

Por que nos abstermos de olhar nos olhos perdidos, para que os olhos perdidos se olhem de volta? 

Por que cobrirmos os espelhos?

Ou armarmos óculos?

Eu percebo. E contrario. Até mesmo teus pedidos meio sussurrados, desse jeito, como se secretos. Como se indiscreto falar tendo mais do que palavras na boca, mais do que sentidos (todos os seis, incluindo a consciência) na língua. Mas sorri. Sendo canção, assim, sempre em mim. Sendo canção, assim, propositalmente… Tua ideia: dissonante e cacofônica, sem soar um único acorde.

Não me leve a mal.

Me leve pela mão.

Hey, you, o meu coração não é harmônico. A harmonia é coisa do homem. O meu coração não é um grito. O grito é sentimento universal. O meu coração é, literalmente, pulso e expansão. Eu gosto da vitalidade do oxigênio, e respiro com calma porque os meus movimentos peristálticos são biologicamente calmos demais.

A minha existência sem propósito gigantes, durante 4 minutos e 33.

Eu poderia quebrar o espelho do teu quarto e refazê-lo num mosaico, 273 pares de olhos te olhariam e você entenderia o porquê.

A solidão é quando se ouve os próprios ossos rangerem ou partirem.

Claudia